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Para ter sucesso, as empresas devem seguir seu principal propósito: gerar lucro para os acionistas!

Certo?

É o que muitos ainda respondem, mas o atual contexto corporativo mundial indica a vontade das grandes corporações de adotarem propósitos mais includentes, mesmo ainda não sabendo qual exatamente o caminho a seguir.

O tema tem sido amplamente discutido e culminou com a recente assinatura de uma nova declaração, por 181 CEO’s das maiores empresas americanas associadas à BRT – Business Roundtable, como: IBM, JPMorgan Chase, Johnson & Johnson, GM, Dow Chemical, Amazon e Accenturi. Nela estabelecem que o propósito de uma corporação não é apenas o de gerar resultados e servir aos acionistas (como era a posição oficial desde 1997), mas sim o de “criar valor para todas as partes interessadas (ou como dizem os americanos: stakeholders)”.

Quais são os principais pontos do documento assinado?!

  1. Entregar valor aos nossos clientes.
  2. Investir em nossos funcionários.
  3. Lidar de forma justa e ética com nossos fornecedores.
  4. Apoiar as comunidades em que trabalhamos.
  5. Gerar valor a longo prazo para os acionistas.
Baixe aqui o “Statement on the Purpose of a Corporation”

Por que esta mudança após 22 anos?

O modelo anterior seguia a premissa do Nobel de Economia de 1970, Milton Friedman, que defendeu que “existe apenas uma responsabilidade social dos negócios, participar de atividades destinadas a aumentar seus lucros”, que resultou no objetivo principal das empresas de ganhar dinheiro para os acionistas.

Esta posição há muito vem sendo contestada por influenciadores de peso, como Jack Welch que na época da GE chegou a declarar que é “a ideia mais idiota do mundo”; Bill Gates durante seu discurso em Davos em 2008, pedindo um novo “capitalismo criativo”; e professor Michael Porter da Havard Business School que clamou por um capitalismo de “valor compartilhado”.

Quando o jornalista Steven Pearlstein, do Washington Post, em junho do ano passado, criticou a declaração do BRT de 1997: “decisão de declarar maximizar o valor para o acionista como o único objetivo de uma corporação” é “a fonte de muito do que deu errado no capitalismo americano”, começaram as discussões na BRT – Business Roundtable.

Sempre houve desigualdade, um enorme e crescente abismo entre os ricos e os pobres trabalhadores, entre os ganhos de capital e os salários estagnados, entre os poucos protegidos e os muitos vulneráveis. O que mudou é que agora todos têm consciência disso e o abismo pode aumentar ainda mais com a automação, digitalização, robótica e AI.

A primazia dos acionistas não pôde resolver os problemas da sociedade e cada vez mais as pessoas questionam sobre propósito, valores, inclusão e preservação.

O atual sistema obcecado pelos acionistas e ganhos imediatos não responde aos questionamentos e os líderes começaram a ser pressionados para repensarem o papel dos negócios, a se concentrarem nos propósitos das empresas e em como elas contribuem para a sociedade. Conquistar lucro imediato, sem pensar nas consequências que podem acarretar em prejuízos a longo prazo para a sociedade e para o meio ambiente passou a incomodar.

“As pessoas estão fazendo perguntas fundamentais sobre o quão bem o capitalismo está servindo a sociedade.”

Alex Gorsky, CEO da Johnson & Johnson

A grande questão do momento é: O que posso fazer para melhorar o mundo?

Vejam estes números da Fortune:

Entrevista com 1.026 adultos, com apoio da consultoria New Paradigm Strategy Group, constatou 72% concordam que as empresas públicas devem ser “motivadas por missão” e também focadas em acionistas e clientes. Hoje, muitos americanos (64%) dizem que o “objetivo principal” de uma empresa deve incluir “tornar o mundo melhor”, como dizem que deve incluir “ganhar dinheiro para os acionistas”. Entre as idades de 25 a 34, 80% dizem que querem trabalhar.

Quatro em cada 10 CEO’s da Fortune 500 (41%), de acordo com uma pesquisa realizada em março por meio da SurveyMonkey, concordam que a solução de problemas sociais deve ser “parte de sua estratégia principal de negócios”. (7% ainda permanecem com Friedman, eles deveriam “se concentrar principalmente em obter lucros e não se distrair com objetivos sociais”.)

Fonte: Fortune 

Como tudo isso vai afetar o meio corporativo no Brasil?

Tendência…

Quando falamos das maiores empresas americanas, na verdade estamos falando das maiores empresas do mundo. Muitas das empresas que a assinaram o Statement on the Purpose of a Corporation têm filiais no Brasil ou, ao menos negócios com empresas brasileiras. O que acontece no mercado corporativo americano reverbera no brasileiro, incluindo filosofias e metodologias.

Um Executivo do Futuro deve ser um explorador de tendências, isso permitirá que seja crítico, analítico, resiliente e, principalmente, que se prepare para o que virá.

Leia o que diz um dos CEO’s brasileiros de multinacional:

“Aqueles que optam por se manterem reclusos, evitando o intercâmbio, perdem o foguete para o mundo 4.0.”

Altair Rossato, CEO da Deloitte no Brasil

Por isso a questão da Amazônia foi tão debatida no mundo.

Veja a correlação que o autor, palestrante e especialista Andrew Winston fez no seu artigo para Harvard Business Review entre a declaração assinada e as queimadas na Amazônia:

“O aumento da queima da Amazônia se deve em grande parte às políticas para ajudar a agricultura industrial e as indústrias de carne, todas habilitadas por um presidente brasileiro que deseja monetizar o capital natural. Que responsabilidade as empresas têm para evitar essa degradação? Presumivelmente, as empresas que assinam um comunicado como o BRT não comprariam de fornecedores de carne que queimaram a Amazônia para criar pastagens. E as empresas que realmente colocam as partes interessadas e as necessidades de longo prazo à frente dos investidores de curto prazo combateriam proativamente esses tipos de políticas devastadoras. Da mesma forma, os signatários devem se tornar barulhentos, defensores de um preço pelo carbono.”

Deixando de lado questões políticas e se as queimadas estão aumentando ou não na Amazônia, o que Winston está nos dizendo é que, se de fato as empresas que assinaram a declaração da BRT levarem a sério seu posicionamento, buscando construir um novo legado com visão de longo prazo, empresas que agridem a natureza, não importando mais dentro de qual contexto, serão rejeitadas como parceiras.

As empresas seguirão esses princípios?

Acredito que as grandes corporações irão adequar os seus propósitos e valores aos princípios assinados, mas que terão dificuldades em implementar, já que devem se deparar com situações conflitantes ao buscar atender todos os stakeholders. Muitas questões entram em jogo:

  • legislação, regulamentações, políticas e supremacia governamentais,
  • como se comportará a BRT diante de empresas que não cumprirem o acordo
  • o comportamento dos CEO’s perante as exigências de acionistas
  • se as empresas estarão dispostas a investirem em soluções disruptivas
  • etc.

Diante da 4ª Revolução Industrial (pós-digital), e da Sociedade 5.0, onde os serviços são fornecidos a qualquer hora, em qualquer lugar, para qualquer pessoa; com tecnologia de ponta, IoT e AI aplicadas para resolverem problemas, as corporações e ecossistemas precisarão correr para adaptarem seus objetivos às expectativas da sociedade.